Marcha da Vida 2015 na Polônia – parte II

Continuação do relato do Grupo da Marcha sobre a viagem à Polônia…

Escrito por Michelle Weiser

“Ônibus rumo a Lublin, cidade do leste polonês – a cerca de 50km da fronteira com a Ucrânia. Iniciamos nosso trajeto no Castelo, que, no período de Guerra, tornou-se quartel general da CSS. Pudemos compreender a influência da economia e da cultura judaica para a Polônia no período, assim como alguns de seus reflexos no que conhecemos como cultura judaica atual. Acompanhamos, então, mentalmente cada passo da invasão alemã e suas consequências opressivas para a população local. Os judeus, no caso, foram enviados ao gueto de Lublin (uma forma simples de “descontaminar” a cidade) e, posteriormente, a campos de extermínio.

No século XVI, Lublin era um dos polos judaicos que mais florescia no País;  No século XX, Lublin tornou-se (à força) marionete da Alemanha nazista, palco de acontecimentos que marcaram para sempre a história judaica e, mais que isso, a história da humanidade; Hoje, no século seguinte (XXI), já não estão aparentes os traços do judaísmo na cidade – apenas alguns rastros que podemos ver com algum esforço. Uma pena! Para nós, judeus; para eles, poloneses; para a humanidade.

Fomos para Majdanek, campo de trabalho e extermínio na periferia de Lublin – parcialmente original e parcialmente reformado/reconstituído. O olhar paralisa, o corpo enrijece e as palavras se recusam a sair. Aqui, emoções e sentimentos afloram desde o primeiro vislumbre a 2km de distância. Ficamos arrepiados com o tamanho do local e com a aparência sombria de sua fachada, que tanto tinha a esconder na época. Sentimos no coração todo o peso que o lugar carrega e ironicamente o dia estava lindo – sol, céu aberto, árvores enormes e bem cuidadas. Passamos (quase sem ar) pelas salas de banho, as câmaras de gás, o local em que produziam sapatos, os dormitórios e o crematório. Circulamos e exploramos um campo que parecia ainda estar vivo.

Com relatos de sobreviventes e complementos históricos e numéricos do moré derekh, pudemos voltar no tempo – ao menos (felizmente) em pensamento. Raciocinamos quanto à mecânica do campo, sua engrenagem, sempre focada em trazer louros ao Terceiro Reich ou à Alemanha Nazista: antes de cremar o corpo, checava-se para procurar pertences escondidos, mutilava-se o corpo em caso de suspeita positiva; após cremar os corpos, o responsável banhava-se a alguns metros de distância com água quente provida pelo calor da queima de corpos.

Entre esses e outros episódios perdemo-nos em lágrimas pelo que já não se pode ver ali, sentimos o coração apertar a cada passo. Apesar do lindo dia e da companhia do grupo, um senso de alerta e vulnerabilidade nos acompanha de ponta a ponta no campo. Ao mesmo tempo, a cada minuto desconstruíamos mais e mais a história e suas narrativas! Nos colocamos no lugar de alemães, poloneses livres, prisioneiros cristãos e judeus. Quem foi vilão e quem foi mocinho? Quem foi vítima? Teríamos feito diferente se estivessem sob as mesmas circunstâncias? Cada vez mais compreendemos que uma escolha depende de diversos fatores, que julgamentos não podem ou devem ser feitos já que não estivemos ali e, novamente felizmente, não tivemos que escolher.

Tantas vidas partidas ao meio, tantos sonhos rasgados! Quanto sofrimento esse local comportou, quanta angústia e quanta esperança? ESPERANÇA… Uma palavra tão forte e leve, abstrata de fato, mas real para o coração que sente. Sob a lembrança dos que já se foram, resgatamos o quanto é importante lutar por nossos sonhos e viver cada dia intensamente, com quem amamos e pelo que acreditamos. Fazer o que aquelas pessoas, tão diferentes entre si, não puderam fazer. Ser um soldado do bem e não fechar os olhos para o mal!

Após um tocante Hatikvá, uma mensagem poderosa e abraços verdadeiros, nos despedimos de Majdanek com a esperança de jamais testemunhar outro massacre, a obrigação de manter a memória viva e uma imensa responsabilidade: lembrar, aprender, educar, VIVER. Viver intensamente, influenciando positivamente cada ser humano próximo de nós. Que honremos suas memórias. Lechaim!”

 

Depoimento de Barbara Azoubel
“Talvez Auschwitz seja, entre os terríveis cenários do horror nazista, o mais popular. Muito explorado em filmes, documentos, fotografias e estudos no pós guerra, a imagem deste campo está viva no nosso inconsciente. Pensamos em campo de concentração, pensamos primeiro em Auschwitz. Para nós que em poucos dias já tivemos experiências tão marcantes e particularmente realistas quanto Treblinka e Majdanek, adentrar o emblemático portão de ferro ou a enorme estação de trem pareciam cenas de uma super produção de cinema. Distante do choque de realidade anterior, agora a visão era familiar. Não parecia realmente surpreender. Conosco, milhares de turistas e grupos escolares dividiam espaço entre os densos e simétricos barracões friamente organizados. Um perfeito museu. Temos a tranquilidade de percorrer seus caminhos didaticamente organizados para ilustrar trágicos momentos da história da humanidade. Mas estamos num museu. E isso que estava tão claro quando entramos pela confusão de pessoas, catracas, microfones e máquinas fotográficas, vai aos poucos se dissolvendo na imensidão do campo. Aos poucos vamos perdendo a noção de parque temático apreendida de início com a tumultuada e congestionada chegada e vamos imergindo na densas construções, até finamente chegarmos ao opressor vazio de Birkenau. Quem sabe agora separar as doses de realidade? De repente a magnitude espacial fica diretamente proporcional às inestimáveis perdas humanas. Impressiona o cheiro da madeira, os extensos trilhos do trem, a expressão do terror traduzida em números. Montanhas de cabelos, sapatos, óculos, malas, demonstram materialmente as proporções do genocídio através de  objetos cotidianos. E isso choca, emociona, vai nos tirando da palpável imagem revisitada. Estamos vulneravelmente expostos ao que há de mais frágil na personalidade humana: O exercício da tolerância. Saímos de Auschwitz, como tantos outros já saíram, desde que nos foi permitido há exatos 70 anos. Nem todos da mesma forma, mas ninguém intacto. Há mesmo algo misteriosamente transformador neste lugar, algo que provavelmente não podemos explicar claramente, mas que inevitavelmente podemos sentir.”

 

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